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Entrevistas

  (04/Abr) Entrevistando o filósofo Weber Lima
 
Entrevistando o filósofo Weber Lima




Responsável - Will Goya


MINI-CURRÍCULO:

Weber Lima
Analista de Sistemas (Burroughs - atual UNISIS/ITI - Carlos Chagas-GO). Formado em Filosofia (UFG). Mestre em Filosofia (UFG). Doutor em Sociologia (UnB). Formado em artes marciais chinesas (Wushu). Professor universitário. Consultor e pesquisador nas áreas: ética, violência, subjetividade, democracia, esfera pública, linguagem, epistemologia e lógica.


A ENTREVISTA:


Fale-me um pouco sobre o seu encontro entre a formação em filosofia e a cultura oriental

Weber Lima - Iniciei minha formação profissional em uma área técnica, a informática. Na época os microcomputadores ainda eram uma promessa. Minha formação foi no B6910, um monstro para os padrões atuais. O sistema operacional era o ALGOL (ALGOritm Language). A sala onde a CPU (unidade central de processamento) ficava era uma geladeira. Depois de algum tempo atuando como programador e analista, entrei para o curso de física na Universidade Federal de Goiás, por ser uma de minhas paixões intelectuais. Contudo na década de 80 o curso de física estava mais para engenharia eletrônica do que para física propriamente dita. Isso me fez mudar para o curso de filosofia por achar que me daria mais condições de um pensar mais teórico - o que eu buscava na formação em física.
Nesse mesmo período iniciei minha formação em cultura e artes marciais chinesas (Wushu, mas conhecido como "Kung Fu"). Uma parte de minha família é descendente de japoneses. Convivi com a cultura oriental desde minha mais tenra infância. Desde muito cedo (bem antes dessa onda de alteridade) aprendi a respeitar diferentes pontos de vista culturais e hábitos sociais diversos, bem como concepções religiosas distintas. Um pouco mais tarde me graduei e fiz mestrado, em filosofia. Em 2006 concluí meu doutorado na UnB na área de sociologia da violência (segurança pública). Tenho feito pesquisas quanto à subjetividade contemporânea, quanto à violência e esfera pública (democracia).


Em que sentido a cultura oriental influenciou a sua formação acadêmica?

Weber Lima - A cultura oriental me possibilitou entender diferentes estruturas sociais do existir humano, bem como a respeitá-las sem perder a possibilidade da crítica. Oriental ou ocidental, embora haja inúmeros debates éticos a respeito, todas as culturas possuem bases éticas bem parecidas no que concerne à preservação da vida, salvo em momentos muito específicos (guerras etc.). Algumas culturas apresentam hábitos estranhos para nós ocidentais, mas não são imunes à discussão. A arrogância característica da cultura hegemônica militar européia levou ao exagero de considerar qualquer cultura como além de qualquer possibilidade de crítica por inexistir um parâmetro comum para julgamento. Ora esse é o tipo de relativismo extremo não menos perigoso do que a arrogância supramencionada. Por mais que uma cultura tenha parâmetros próprios, esses parâmetros não estão acima de uma discussão pública internacional apenas por serem locais. O malfadado discurso pós-modernista afirma teses assim: não existem parâmetros comuns, logo não é possível qualquer crítica a outra cultura. Sendo assim a cliterectomia em alguns países africanos é tão ética quanto o seu inverso. Um non sense sem precedentes. Desde quanto extirpar uma mulher de seu direito a sentir prazer é um absoluto cultural local? Penso que a cultura oriental foi um contraponto para pensar essas questões sem as armadilhas da arrogância ou do relativismo.


Como você pensa o crescente conflito entre religiosos e ateus no cenário contemporâneo?

Weber Lima - A disputa entre os religiosos e os não-religiosos não é nova. Contudo os religiosos detêm a hegemonia, e sempre detiveram ao longo da história (diferentes instituições religiosas, é claro), quanto a exporem suas idéias e rejeitarem as críticas atéias, às vezes até violentamente. No momento presente, com o retorno do fundamentalismo e do obscurantismo (aliás, recorrentes na história humana), alguns ateus resolveram confrontar essa hegemonia, não raro, cínica, embora travestida de tolerância. As instituições religiosas sempre foram conservadoras quanto a uma série de questões: direitos femininos, aborto, divórcio etc. E sempre impuseram suas idéias, em especial quando influenciaram mais diretamente o estado. O que alguns ateus estão fazendo, penso eu, é questionar esse automatismo religioso, a saber, o respeito automático que as religiões reivindicam para suas posições, embora não reconheçam o direito à discordância daqueles que não compartilham as mesmas convicções. Não concordo, contudo, com alguns ateus que propõem a extinção das religiões. Em meu entender é um exagero não menos perigoso do que a arrogância característica de algumas instituições religiosas, e de seus seguidores, porque ignora a liberdade quanto ao que acreditar - um direito fundamental (salvo se a crença atentar contra o próprio direito a ter direitos).


As universidades públicas brasileiras estão se aperfeiçoando quanto à renovação de seus quadros acadêmicos ou ainda permanecem "feudais"?

Weber Lima - A concepção de universidade foi criada na Idade Média pela Igreja Católica, portanto é uma instituição medieval. Em alguns países essa instituição se aperfeiçoou ao longo do tempo. No Brasil as instituições de ensino universitário são pós-1808, ano da chegada da família real portuguesa por aqui, e, portanto, são muito mais novas do que as da Europa e alguns países latino-americanos. Penso que por aqui ainda mantém uma estrutura burocrática com muito dos vícios típicos do serviço público brasileiro. Contudo é importante ressaltar que apesar disso são as universidades públicas que produzem o melhor conhecimento científico, porque pouquíssimas instituições privadas produzem conhecimento confiável. Se as universidades públicas brasileiras quiserem superar a crise que as assola, pelo menos, desde o término da ditadura militar, deverão renovar seus quadros de professores com um maior intercâmbio internacional, e também possibilitar que novos professores façam parte da academia brasileira de forma mais dinâmica por meio de maior número de concursos públicos.


O que significa o retorno das disciplinas: sociologia e filosofia ao ensino médio?

Weber Lima - Tudo dependerá de a filosofia e a sociologia não se tornarem uma ideologia partidária nas escolas de ensino médio. A filosofia e a sociologia são disciplinas eminentemente críticas, mas qual disciplina na área das ditas ciências humanas não o é? Sendo assim ambas poderão contribuir para uma compreensão mais ampla da realidade social brasileira e internacional. Mas se continuarem a ser apenas pregação ideológica partidária, como vem acontecendo em várias escolas, em especial públicas (uma espécie de hugochavização), terão muito pouco a contribuir no sentido de uma participação mais cidadã. Como sou professor de ambas as disciplinas espero ver os jovens mais atuantes politicamente e mais exigentes quanto a quem elejam. Também espero que os jovens brasileiros sejam menos dogmáticos quanto a assuntos diante dos quais necessitamos de muito mais informações: clonagem, células tronco etc. E quanto a sua própria formação, sendo exigentes quanto à qualidade do ensino pelo qual todos nós pagamos caro com nossos impostos.


Por que ainda persiste o estereótipo quanto à filosofia ser considerada inútil?

Weber Lima - A filosofia é uma área ampla e eminentemente teórica. Nossas raízes históricas privilegiam o prático (aliás, essa é uma característica mundial). Sempre que um conhecimento for não-aplicável a situações imediatas veremos esse conhecimento ser considerado "inútil". Infelizmente esse estereótipo persiste e se reproduz interminavelmente em nossa cultura. Já aludi diversas vezes em minhas aulas quanto ao por que de pensarmos assim e suas conseqüências. Uso o argumento de ser a teoria um planejamento estratégico quanto à compreensão dos problemas os quais nos desafiam. E utilizo também o exemplo de ao ignorarmos a teoria (o que não implica em desprezar a prática) agirmos como alguém que deseje fazer um satélite de alta tecnologia em um ferro velho apenas por tentativa e erro. Também aludo à visão inexata segundo a qual os navegadores que por aqui chegaram de Portugal serem todos "práticos", sem formação. Um bando de "bandidos" e ignorantes. Isso tudo para justificar o Brasil ser como é: um país de corruptos. E, estranhamente, um país prático por excelência! A teoria entra exatamente nesse momento nos possibilitando demonstrar ser esse tipo de argumentos desculpas para os problemas continuarem, sem nos envolvermos, ou seja, um mecanismo social cínico e perigoso. E também uma desculpa para não estudarmos questões muito difíceis, a velha preguiça mental.

     

 
 
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