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Trechos de livros
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Leia trechos de obras, entrevistas, palestras dos principais filósofos |
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Responsável - Equipe de ensino do Instituto Packter. |
(23/Nov)
Para uma crítica da economia política, de Marx
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A arte grega supõe a mitologia grega, quer dizer, a natureza e as formas da
sociedade, já elaboradas pela imaginação popular, ainda que de uma maneira
inconscientemente artística. São estes os seus materiais. A arte grega, portanto,não se apoia numa mitologia qualquer, isto é, numa maneira qualquer de
transformar, ainda que inconscientemente, a natureza em arte (a palavra natureza
designa aqui tudo o que é objetivo, e portanto também a sociedade). De modo
nenhum a mitologia egípcia poderia ter gerado a arte grega; nem poderia ter
gerado uma sociedade que tivesse alcançado um nível de desenvolvimento capaz
de excluir as relações mitológicas com a natureza exigindo do artista uma
imaginação independente da mitologia.
Trata-se de uma mitologia que proporciona o terreno favorável ao florescimento da arte grega.
Por outro lado: será Aquiles compatível com a idade da pólvora e do chumbo?
Ou, em resumo, a Ilíada com a imprensa, ou melhor, com a máquina de
imprimir? O canto, a lenda, as musas, não desaparecerão necessariamente ante a
barra do tipógrafo? Não desapareceram já as condições favoráveis à poesia épica?
No entanto, a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopéia
estão ligadas a certas formas de desenvolvimento social; está sim no fato de nos
proporcionarem ainda um prazer estético, e de serem para nós, em certos
aspectos, uma norma e até um modelo inacessíveis.
Um homem não pode voltar a ser criança, a não ser que caia na puerilidade.
Porém, não é verdade que ésensível à inocência da criança, e que, a outro nível,
deve aspirar a reproduzir a sinceridade da criança? Não éverdade que o caráter de cada época, a sua verdade natural, se reflete na natureza infantil?
Por que motivo então a infância histórica da humanidade, o momento do seu pleno florescimento,não há-de exercer o encanto eterno, próprio dos momentos que não voltam a acontecer? Há crianças deficientemente educadas, e crianças que crescem
demasiado depressa: a maior parte dos povos da antiguidade incluiam-se nesta
categoria. Os Gregos eram as crianças normais. O encanto que encontramos nas
suas obras de arte não é contrariado pelo débil desenvolvimento da sociedade em
que floresceram. Pelo contrário, é uma consequência disso; é inseparável das
condições de imaturidade social em que essa arte nasceu - em que só poderia ter
nascido - e que nunca mais se repetirão.
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(04/Nov)
A Rebelião das Massas, de Jose Ortega y Gasset
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Somos aquilo que nosso mundo nos convida a ser, e as feições fundamentais de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. Naturalmente: viver não é mais que tratar
com o mundo. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral de nossa vida.
Por isso insisto tanto em fazer notar que o mundo de onde nasceram as massas atuais mostrava uma fisionomia radicalmente nova na história. Enquanto no pretérito viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades, perigos, escassez, limitações de destino e dependência, o mundo novo aparece
como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas, sem dúvida, onde não se depende de ninguém. À volta desta impressão primária e permanente vai se formar cada alma contemporânea, como em volta da oposta se formaram as antigas. Porque esta impressão fundamental se converte em voz interior que murmura sem cessar umas como palavras no mais profundo da pessoa e lhe insinua
tenazmente uma definição da vida que é, ao mesmo tempo, um imperativo. E se a impressão tradicional dizia: "Viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter de contar com o que nos limita", a voz novíssima grita: "Viver é não encontrar limitação alguma; portanto, abandonar-se tranqüilamente a si mesmo.
Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém".
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(31/Out)
A República, de Platão
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Sócrates ? Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco ? Estou vendo.
Sócrates ? Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
(...)
Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado à endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
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(30/Out)
Introdução ao Pensamento Filosófico, de Jaspers
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Ganho essa independência exatamente quando e onde pareço completamente dependente, ou seja, quando reconheço que em minha liberdade, em meu amor, em minha razão fui dado a mim mesmo. Nenhuma dessas coisas está sob o meu poder, eu não as faço surgir.
Se atinjo o ponto que sou dado a mim mesmo, distancio-me de todas as coisas e, inclusive de mim. Como que de um plano de observação externo a mim- em verdade, inatingível- contemplo o que acontece e o que faço. É como se me fosse preciso atingir aquele plano para mergulhar na realidade histórica. De lá jorra a luz que faz crescer minha liberdade interior. Torno-me independente na medida em que vejo as coisas a essa luz.
Essa independência é uma quietude, sem violência e sem orgulho. Tanto menos soberba, quanto mais segura de si mesma. Evidencia-se permanecendo em obscuridade. Na independência, a liberdade não permanece vazia. Limitar-se a si mesmo não seria independência. A independência quer participar do mundo. Age. Ouve e responde aos apelos da sorte. Não foge às exigências do dia. Quando o destino parece deter as rédeas, ousa envolver-se em situações de risco, na esperança de vir a dominá-las.
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(18/Out)
O Grande Gatsby, S. Fitzgerald
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Sinto-me inclinado a guardar para mim todos os meus juízos, hábito esse que fez com que muitas naturezas curiosas se abrissem comigo, mas que também me tornou vítima de muitos maçadores inveterados.
A mente anormal percebe-a rapidamente e sente-se atraída por essa qualidade, quando ela aparece numa pessoa normal, e, assim, aconteceu que, na universidade, eu fui injustamente acusado de ser um político, por saber guardar as mágoas secretas de indivíduos violentos, desconhecidos. Quase todas as confidências eram espontâneas, eu fingia, não raro, que estava dormindo, que me achava preocupado ou, então, revelava uma leviandade hostil, ao perceber, por certos sinais inconfundíveis, que uma revelação íntima palpitava no horizonte - pois que as revelações íntimas dos jovens ou, pelo menos, os termos em que eles as exprimem, têm, habitualmente, muito de plágio e, o que é pior, de plágios desfigurados por evidentes supressões. Reservar para nós os nossos juízos, é coisa que proporciona infinitas possibilidades.
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(18/Out)
A Revolução dos Bichos
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O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.
O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano --nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?
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(06/Out)
O Olho e o Espírito, de Maurice Merleau-Ponty
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A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Fabrica para si modelos internos delas e, operando sobre esses índices ou variáveis as transformações permitidas por sua definição, só de longe em longe se defronta com o mundo atual. Ela é, sempre foi, esse pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse parti pris de tratar todo o ser como "objeto em geral", isto é, a um tempo como se ele nada fosse para nós, e, no entanto, se achasse predestinado aos nossos artifícios.
Mas a ciência clássica guardava o sentimento da opacidade do mundo, era a este que ela pretendia juntar-se por suas construções, e por isto é que se acreditava obrigada a procurar para suas operações um fundamento transcendente ou transcendental. Há, hoje em dia - não na ciência, e sim numa filosofia das ciências assaz difundida -, isto de inteiramente novo: que a prática construtiva se torna e se dá por autônoma, e que o pensamento deliberadamente se reduz ao conjunto das técnicas ou tomada de captação, que ele inventa. Pensar é ensaiar, operar, transformar, sob a única reserva de um controle experimental onde só intervém fenômenos altamente "trabalhados", e que os nossos aparelhos produzem, em vez de registrá-los. Daí toda sorte de tentativas desordenadas. Nunca, como hoje, a ciência foi sensível às modas intelectuais. Quando um modelo foi bem sucedido numa ordem de problemas, ela o experimenta em toda a parte.
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(15/Set)
Tratado do encadeamento das idéias fundamentais nas ciências e na história, de Cournot
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A idéia da Natureza é a idéia de um poder e de uma arte divinos inexprimíveis, sem comparação ou medida com o poder e a indústria do homem, que imprime em suas obras um caráter próprio de majestade e graça, que opera todavia sob o domínio de condições necessárias, que tende fatal e inexoravelmente a um fim que nos ultrapassa, de maneira contudo que essa cadeia de finalidade misteriosa, da qual não podemos demonstrar cientificamente nem a origem, nem o termo, aparece a nós como um fio condutor com a ajuda do qual a ordem é introduzida nos fatos observados e que nos coloca no rastro dos fatos a pesquisar. A idéia da natureza, esclarecida assim tanto quanto pode ser, não passa da concentração de todos os clarões que a observação e a razão nos fornecem sobre o conjunto dos fenômenos da vida, sobre o sistema dos seres vivos.
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