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Oráculo


Responsável - Lúcio Packter, filósofo formado pela PUC-Fafimc, de Porto Alegre.



Há mais de um sentido para Identidade?

 
Aristóteles aponta para três elementos importantes. Leia a seguir.

Em primeiro lugar, devemos definir os diversos sentidos da palavra identidade. A identidade se poderia considerar de maneira geral, e falando sumariamente, como incluída em três divisões. Em geral, aplicamos o termo
ou em sentido numérico, ou específico, ou genérico - numericamente, nos casos em que há mais de um nome, mas uma coisa só, como manto e capa;
especificamente, quando há mais de uma coisa, mas estas não apresentam diferenças no tocante à sua espécie, como um homem e outro homem, ou um
cavalo e outro cavalo, pois coisas assim pertencem à mesma classe, e delas se
diz que são especificamente idênticas. E, do mesmo modo, chamam-se genericamente idênticas aquelas coisas que pertencem ao mesmo gênero,como um cavalo e um homem.
Poderia parecer que o sentido em que a água proveniente da mesma fonte se chama a mesma água difere de certo modo e se afasta dos sentidos que mencionamos acima; mas, em realidade, um caso como esse deveria ser
incluído na mesma classe com aquelas coisas que, de um modo ou de outro, são chamadas idênticas em virtude de uma unidade de espécie. Todas essas
coisas, com efeito, se assemelham entre si como se fossem membros da mesma família. E a razão pela qual se diz que toda água é especificamente
idêntica a qualquer outra água é uma certa semelhança que existe entre as duas, e a única diferença no caso da água proveniente da mesma fonte é que
aqui a semelhança é mais pronunciada: por isso mesmo não a distinguimos das
coisas que, de um modo ou de outro, são chamadas idênticas devido à unidade
de espécie.

Supõe-se geralmente que o termo o mesmo se emprega sobretudo, num
sentido aceito por todo mundo, quando aplicado ao que é numericamente uno.
Mas, mesmo assim, pode ser empregado em mais de um sentido; vamos
encontrar seu uso mais literal e primeiro sempre que a identidade diz respeito
a um nome ou definição duplos, como quando se diz que um manto é o
mesmo que uma capa, ou que um animal que anda com dois pés é a mesma
coisa que um homem; um segundo sentido é aquele que se refere a uma
propriedade, como quando se diz que aquilo que é capaz de adquirir
conhecimento é o mesmo que um homem, e aquilo que naturalmente se move
para cima é o mesmo que o fogo; e encontramos ainda um terceiro sentido do
termo quando diz respeito a um acidente, como quando se diz que aquele que
está sentado ou que é músico é o mesmo que Sócrates. Todos estes usos, com
efeito, significam identidade numérica.
A verdade do que acabo de dizer pode ver-se mais claramente quando uma
forma de apelação é substituída por outra. Muitas vezes, com efeito, quando
damos ordem de chamar uma das pessoas que estão sentadas, designando-a
pelo seu nome, mudamos de descrição sempre que aquele a quem damos a
ordem não nos entende; parece-nos que ele nos compreenderá melhor se
indicarmos a pessoa por algum aspecto acidental, e assim mandamo-lo chamar
"o homem que está sentado", ou "aquele que está conversando ali" - na
suposição evidente de que estamos designando o mesmo indivíduo pelo seu
nome e pelo seu acidente.


Pascal se refere a nós como criaturas que não se aceitam (a si mesmas)?

 
Em diversas ocasiões o filósofo demonstra esta afetação e a liga à sociedade e às ilusões de uma vida não autêntica. Leia o que ele escreve em seus Pensamentos.


Não nos contentamos com a vida que temos em nós e no nosso próprio ser: queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária e para isso esforçamo-nos por manter as aparências. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar o nosso ser imaginário, e descuramos o verdadeiro. E se temos ou a tranquilidade, ou a generosidade, ou a felicidade, apressamo-nos a apregoá-lo, a fim de atribuir estas virtudes ao nosso outro ser, e se fosse preciso estararíamos prontos a despojar-nos delas para as juntar ao outro; de bom grado seríamos cobardes para adquirirmos a reputação de valentes.
Grande sinal do nada que somos, não nos contentarmos de uma coisa sem a outra, e trocarmos muitas vezes uma pela outra! Pois quem não morresse para conservar a sua honra seria infame.


Para Rousseau, qual a justificativa para o mal estar do homem?

 
O filósofo tratou em vários segmentos este tema. Leia um destes segmentos neste encarte de Discurso Sobre a Origem da Desigualdade.


O homem selvagem, quando acabou de comer, está em paz com toda a natureza, e é amigo de todos os seus semelhantes. Se, algumas vezes, tem de disputar o seu alimento, não chega nunca ao extremo sem ter antes comparado a dificuldade de vencer com a de encontrar noutro lugar a sua subsistência; e, como o orgulho não se mistura ao combate, ele termina por alguns socos. O vencedor come e o vencido vai procurar fortuna noutra parte, e tudo está pacificado. Mas, no homem da sociedade, é tudo bem diferente; trata-se, primeiramente, de prover ao necessário, depois, ao supérfluo. Em seguida, vêm as delícias, depois as imensas riquezas, e depois súbditos e escravos. Não há um momento de descanso. O que há de mais original é que, quanto menos as necessidades são naturais e prementes, tanto mais as paixões aumentam, e o que é pior, o poder de as satisfazer. De sorte que, após longas prosperidades, depois de haver devorado muitos tesouros e desolado muitos homens, o meu herói acabará por tudo arruinar, até que seja o único senhor do universo. Tal é, abreviadamente, o quadro moral, senão da vida humana, pelo menos das pretensões secretas do coração de todo homem civilizado.

Comparai, sem preconceitos, o estado do homem civilizado com o do homem selvagem, e investigai, se o puderdes, como além da sua maldade, das suas necessidades e das suas misérias, o primeiro abriu novas portas à miséria e à morte. Se considerardes os sofrimentos do espírito que nos consomem, as paixões violentas que nos esgotam e nos desolam, os trabalhos excessivos de que os pobres estão sobrecarregados, a moleza ainda mais perigosa à qual os ricos se abandonam, uns morrendo de necessidades e outros de excessos; se pensardes nas monstruosas misturas de alimentos, na sua perniciosa condimentação, nos alimentos corrompidos, nas drogas falsificadas, nas velhacarias dos que as vendem, nos erros daqueles que as administram, no veneno do vasilhame no qual são preparadas; se prestardes atenção nas moléstias epidémicas oriundas da falta de ar entre multidões de seres humanos reunidos, nas que ocasionam a nossa maneira delicada do viver, as passagens alternadas das nossas casas para o ar livre, o uso de roupas vestidas ou despidas sem precauções, e todos os cuidados que a nossa sensualidade excessiva transformou em hábitos necessários, e cuja negligência ou privação nos custa imediatamente a vida ou a saúde; se puserdes em linha de conta os incêndios e os tremores de terra que, consumindo ou derrubando cidades inteiras, fazem morrer os habitantes aos milhares; em uma palavra, se reunirdes os perigos que todas essas causas acumulam continuamente sobre as nossas cabeças, sentireis como a natureza nos faz pagar caro o desprezo que temos dado às suas lições.


Qual a justificativa para a vida?

 
Há provavelmente milhares de respostas filosóficas a esta pergunta. Leia como um exemplo o que escreveu Kafka em seus apontamentos:

Ninguém aqui gera mais do que a sua possibilidade espiritual de viver; pouco importa que dê a aparência de trabalhar para se alimentar, para se vestir, etc.; com cada bocada visível uma invisível lhe é estendida, com cada vestimenta visível uma invisível vestimenta. Está nisso a justificação de cada homem. Parece fundamentar a sua existência com justificações ulteriores, mas essa é apenas a imagem invertida que oferece o espelho da psicologia, de fato erige a sua vida sobre as suas justificações. É verdade que cada homem deve poder justificar a sua vida (ou a sua morte, o que vem dar no mesmo), não pode furtar-se a essa tarefa.


Como flutuam os valores na existência?

 
Às vezes os valores de fato flutuam ou parecem ter uma maleabilidade enorme. Leia o que Nietzsche escreveu:

"Todas as coisas 'boas? foram em outro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher. Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os 'valores por excelência?; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza?.


Um valor que se institui por ausência? Como pode ser?

 
Colocamos a seguir um trecho do programa de rádio Conversando com Lúcio Packter, no qual o filósofo discorre sobre valores:

Há inúmeros modos e conceitos em torno dos valores. Exemplo: valoração por ausência. Sabe aquelas pessoas que costumam valorar quando perdem algo? Enquanto tinham a esposa, somente desejavam não ter; depois que a perderam, sentem falta até dos momentos ruins. Alguns descobrem que é pior sem ela... Em seus Pensamentos, Marco Aurélio, lança algumas luzes sobre isso: "Não julgues as coisas ausentes como presentes; mas entre as coisas presentes pondera as de mais preço e imagina com quanto ardor as buscarias se não as tivesses à mão. Mas ao mesmo tempo toma cuidado, não seja caso que ao deliciares-te assim nas coisas presentes te habitues a dar a elas valor exagerado; procedendo assim, se um dia as viesses a perder, davas em louco rematado?.


Por favor, um exemplo entre o todo e as partes, as relações.

 
Há muitos, centenas de exemplos, na Filosofia. Inúmeros filósofos trabalharam a questão sob diferentes aspectos. Leia o que escreveu Pascal quando tratou do homem na natureza:

Acreditamos muito naturalmente sermos mais capazes de alcançar o centro das coisas do que de abraçar-lhes a circunferência; a extensão visível do mundo ultrapassa-nos manifestamente; porém, como ultrapassamos as coisas
pequenas, acreditamo-nos mais capazes de possuí-las; entretanto, não nos falta menos capacidade para chegar ao nada do que chegar ao todo; para um, como para outro, falta-nos uma capacidade infinita, e creio que quem tivesse
compreendido os princípios últimos das coisas chegaria também a conhecer o infinito. Uma coisa depende da outra, e uma conduz à outra. Esses extremos se tocam, e se unem, à força de se afastarem, encontrando-se em Deus, e somente
em Deus. Conheçamos, pois, nossas forças; somos algo e não tudo; o que temos que ser priva-nos do conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada; e o pouco que somos nos impede a visão do infinito.


O futuro é mesmo um dos pilares de Ser e Tempo?

 
Este é um tema que parece ter encontrado um resposta plácida entre os filósofos atualmente. Leia, como um exemplo, o que escreveu o filósofo francês Roger Garaudy:

Heidegger privilegia o papel do futuro no desenrolar do tempo: superamo-nos sem cessar em direção ao futuro; estamos sempre à frente de nós mesmos; a existência é vivida, sobretudo como futuro (...). O homem é o futuro do homem, a idéia central da obra fundamental de Heidegger, Ser e Tempo.

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