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HANNAH ARENDT - História e Historicidade

HANNAH ARENDT - História e Historicidade

História e Historicidade não andam na contramão na vida de Hannah Arendt, caminham, navegam e sobrevoam em tempos sombrios, onde a vida do espírito ganha reflexão entre o passado e o futura, em busca de uma política justa capaz de julgar com responsabilidade, religando liberdade privada e a liberdade pública, sem perder a condição humana, a pluralidade e a singularidade.

Existem pessoas que durante sua temporada existencial fecundam aos cuidados da própria historicidade valores elevados de interesse público e geralmente tudo isso acontece em tempos politicamente medíocre, em meio às calamidades cotidianas e insuficiências da política prática. Hannah Arendt nos deixou um legado, sua confiança na possibilidade de nós começarmos de novo, de fazer a coisa diferente, de sermos capazes de fazer o improvável e o incalculável.

Nascida em casa, Hanover, Baixa Saxônia, 14 de outubro de 1906, um domingo, às 21h30, depois de vinte e duas horas de contrações, conta sua mãe Martha num caderno intitulado Nosso Bebê (Unser kind), onde anotava a evolução física e psicológica da filha. Assim descreve a mãe, sua fase até os onze anos: Ela não gosta de ficar sozinha; rir com as canções alegres; chora com as sentimentais. O contexto de vida de Hannah Arendt foi em tempo de explícitos conflitos políticos que desembocavam em guerras e doenças, mortes de familiares queridos, seguidos de avó, tio e pai. A própria Hannah sofria de eczema desde criança.

Sua historicidade e história nasceram juntas, a cada passo constituíam-se em uma única vida, privada e pública. Romances, amizades, família e sua formação intelectual e espiritual. Vinda de duas famílias judias liberais, cultas e com uma boa situação financeira, seguidores de uma política socialista, compartilham de um mundo igualitário. A relação de Hannah com ajudeidade vai constituir o fio condutor de sua vida, tanto pessoa quanto intelectual.

Hannah tem dez anos quando a revolução democrática de fevereiro, 1918, explode na Rússia, ano do nascimento do partido comunista alemão. Aos quinze anos compartilha com a mãe uma nova família, pois esta faz um novo casamento, onde tem que coabitar com duas filhas do padrasto. Clara de vinte anos e Eva de dezenove. Clara influenciou Hannah com seus livros, com seu amor a língua grega e sua paixão por poesia. Aos dezessete anos faz cursos de latim, grego e teologia cristã na universidade. Aqui começa a escrever seus poemas com questionamentos metafísicos que dizem:Nenuhuma palavra irrompe na escuridão/ Nenhum deus levanta sua mão ? Até onde meu olhar alcança/ vejo terra que se agiganta. Nenhuma forma se desprende, Nenhuma sombra pairante se dá. E continuo sempre apenas a ouvir: Tarde demais, tarde demais.

Uma mulher, uma pensadora, uma amante das paixões entre olhares, uma amante das paixões entre reflexões filosóficas, uma intelectual antes de tudo, ou não. Hannah é orientada pela própria vida a estudar filosofia. Por quê? Em 1964, responde a um jornalista: Fiz muitas vezes essa pergunta a mim mesma e só posso lhes responder: Desde os 14 anos ... Eu tinha lido Kant. Uma filósofa em constante vida do espírito reflexivo. O estudo da filosofia caminha junto com o de teologia, como compreender. Para Hannah o que a confrontava era como fazer teologia quando se é judia? Como encarar isso? Ela dizia que não tinha a menor ideia. Esses momento de tormentos do ser, a melancolia que tomava conta de seu ser, a ausência de lugar no mundo constituíram para a filósofa uma preparação mental e psíquica à descoberta da obra de Martin Heidegger. Hannah era uma filósofa fértil tanto de idéias quanto de amores, vivia cercada de amigos filósofos, que de amigos uma vez amores de primavera, de outono, depois de amores se tornavam amigos. É o que diz um poema de sua autoria: Se de novo nos virmos/ Brancos lilases irão florescer/ Te envolverei de mimos,/ De nada mais deves carecer. Queremos o tom da alegria, Que o vinho seco, Que as tílias perfumadas, Nos encontrem ainda juntos. Quando as folhas caírem/Deixa nossos caminhos porém se apartarem. Que adianta nossas fúrias se elevarem? É preciso simplesmente sofrer a separação. Hannah tem dezoito anos, é uma intelectual angustiada, que assume a tempestade do pensamento, quer compreender a totalidade da vida natural e espiritual, mas desconfia de qualquer dogmatismo.

Porém encontrar Heidegger no seu caminho de leituras e nos corredores e salas de aula e seminários, esse encontro a leva a um novo amor intelectual e emocional, dois romances. E passa a interrogação filosófica a questionar os problemas da existência. Porém o mundo de Hannah é abalado pelas guerras e perseguições. O chão foge sob seus pés. Porém continua seus estudos sobre a fenomenologia de Husserl, se interessa por Nietezsche, Kiekegaarde, faz curso de Karl Jaspers. Inicia sua amizade com Walter Benjamin. 1926-27. Torna-se assistente de Max Scheler e em 1928 conclui sua primeira obra filosófica, Do Ter, constituída de sete capítulos sobre a antropologia do conhecimento. E seguido de uma tese sobre O conceito de amor em Santo Agostinho sob a orientação de Karl Jaspers. Hannah se casa em Berlim em junho de 1929. Em 1930 faz uma conferência sobre Rahel Varnhagen, é alemã ou judia? Neste ano Hannah rompe toda relação com Heidegger e o coloca no campo dos inimigos irredutíveis. Não há futuro sem Hitler, Hitler é o nosso futuro. É o que Heidegger diz, escreve e publica.

Presa e solta depois de oito dias na prisão, Hannah antecipa sua partida, ela saiu da Alemanha e foi para Paris, a capital francesa, onde entrou em contato com intelectuais como o escritor Walter Benjamin.

Nessa época, colaborou em instituições dedicadas a preparar jovens para viverem como operários ou agricultores na Palestina - ao mesmo tempo, trabalhou como secretária da baronesa Rotschild, de uma família de banqueiros.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o governo francês de Vichy colaborou com os invasores alemães e, por ser judia, Hannah foi enviada a um campo de concentração, em Gurs, como "estrangeira suspeita". Porém, conseguiu escapar e aportou em Nova York, em maio de 1941.

Exilada, ficou sem direitos políticos até 1951, quando conseguiu a cidadania norte-americana. Então começou realmente sua carreira acadêmica, que duraria até sua morte. Combateu com toda a alma os regimes totalitários e condenou-os em seus livros "Eichmann em Jerusalém" e "As origens do totalitarismo". No primeiro, estuda o conceito da "banalidade do mal". Em seus depoimentos, Eichmann disse que cumpria ordens e considerava desonesto não executar o trabalho que lhe foi dado, no caso, exterminar os judeus. Hannah concluiu que ele dizia a verdade: não se tratava de um malvado ou de um paranóico, mas de um homem comum, incapaz de pensar por si próprio, como a maior parte das pessoas. Essa afirmação é um eco da frase do filósofo e matemático francês Pascal (1623-1662) "Nada é mais difícil que pensar".

Então vejamos um pouco de algumas obras da filósofa:

1. O que é Política? Agosto de 1950, diz a filósofoa: a política trata da convivência entre diferentes.
2. A Condição Humana. 1958: A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha existir.
3. Entre o Passado e o Futuro. 1954: O papel desempenhado pela educação em todas as utopias políticas, a partir dos tempos antigos, mostra o quanto parece natural iniciar um novo mundo com aqueles que por nascimento e por natureza novos.
4. Responsabilidade e Julgamento. 1960: A filosofia é uma atividade solitária, e parece apenas natural que a necessidade de filosofar surja em tempos de transição, quando os homens jão confiam na estabilidade do mundo e em seu papel neste mundo...
5. Homens em tempos sombrios. 1955: se o verdadeiro anel existisse, significaria o fim do discurso, e portanto da amizade, e portanto da humanidade.
6. Origem do Totalitarismo. 1973: Este livro é uma tentativa de compreender os fatos que, à primeira vista, pareciam apenas ultrajantes. Repito: compreender não significa negar o ultrajante, subtrair o inaudito do que tem precedentes, ou explicar fenômenos por meio de analogias e generalidades tais que deixa de sentir o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela - qualquer que seja, veja a ser ou possa ter sido.
7. A Vida do Espírito. 1971: A questão que se impunha era: seria possível que a atividade do pensamento como tal - o hábito de examinar o que quer que aconteça ou chame a atenção, independentemente de resultados e conteúdo específico - estivesse entre as condições que levam os homens a abster-se de fazer o mal, ou mesmo que ela realmente os condicione contra ele?


A Filósofo em 1975, após um jantar com amigos falece em sua cadeira de balanço, sentada, quieta sem reclamar.

Como referenciar: "HANNAH ARENDT - História e Historicidade" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2019. Consultado em 16/09/2019 às 23:19. Disponível na Internet em http://www.filosofia.com.br/bio_popup.php?id=68