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EDGAR MORIN

EDGAR MORIN - O FILÓSOFO DA COMPLEXIDADE

A verdadeira esperança sabe que não tem certeza. É a esperança não no melhor dos mundos, mas em um mundo melhor. A origem está diante de nós, disse Heidegger. A metamorfose seria efetivamente uma nova origem. (Edgar Morin, jornal francês Le Monde, 9-01-2010)

O que lhe ensinou sua família? Ensinou-lhe o Mediterrâneo, o gosto pelo azeite, pela berinjela, pelo arroz com feijão-branco, pelas almôndegas de cordeiro aromatizadas, pelos folheados de queijo ou de espinafre. Todas estas substâncias e ingredientes incorporados por seus ancestrais na Espanha, na Toscana e na Salônica tornaram-se seus principais alimentos em Paris, onde nasceu e cresceu.
Sua historicidade é um encontro de vida e obra, pelo próprio Morin, onde ser e não-ser perdem, misturam seus sentidos. É o que se constata quando ainda diz: Muito cedo, minha vida orientou-se para o que deveria ser seu próprio trabalho. E tudo começa na madrugada quente de 8 de julho de 1921, perto das 4h, nasce Morin, o primeiro menino neto, filho de Vidal e Luna que receberam a missão familiar de unir os prenomes dos dois avós, porém, no intuito de não reforçarem a concorrência familiar optam por chamá-lo de Edgar Nahum. Em hebraico Nahum significa consolação para os judeus expulsos da Espanha no final do século XV.
Aos nove anos aprendia mais que tudo o que é a morte. Em 26 de junho de 1931, sua mãe é vítima de uma lesão no coração. Essa perda instalou a morte em seu ser como dor, horror e segredo. E por tempo escondeu de todos os membros de sua família. E passou a ouvir El reliquario mesmo sem entender a letra, que falava de amor e morte, porém o que Morin sentia era o amor infinito e a morte com fato irremediável enquanto ouvia a música. Esse acontecimento foi e é o acontecimento de sua vida.
Quando criança e adolescência se sentia sufocado pelo excesso de cuidado, as preocupações paterna de tê-lo sempre perto. No entanto, não lhe deram limites disciplinares, nem impuseram princípios morais rígidos, o que lhe permitiu tornar-se uma pessoa do mundo sem preconceitos , desenvolvendo por si próprio uma ética.
A partir de sua adolescência, por volta dos quatorze ou quinze anos sua compreensão do mundo lhe chega por uma cultura marcada por problemas sociais e questionamentos antropológicos. Sua cultura intelectual tinha autores tais como Balzac, Zola, Ramain Rolland, Anatole France, Tolstoi, Dostoievsky. Enquanto, o cinema contribuía para a sua própria descoberta, refletindo sobre a condição humana, pelas condições vividas pelo coração e pela razão. Para Morin, a escola lhe ensinou a França e por si mesmo aprendeu o resto - que lhe colhe de surpresa no momento que anda pela cidade, em que anda pela noite, quando está adormecendo ou acordando, questionando desesperadamente sem perder a esperança. Morin responsabiliza seu conhecimento a sua caminhada autodidata.
Mais tarde, a partir das aulas de filosofia começa a ler ensaios de Montaigne e Rousseau. Apaixona-se pelos livros de Voltaire e Diderot que tratam da natureza humana. Entretanto, afasta-se da filosofia devido a uma péssima interseção com o seu professor. Daí descobre a música, adquiri o hábito de ir ao concerto do Conservatório. Em 1941, aos vinte anos esteve diante de tensões políticas e o marximos é, então, uma abertura, em vez de ver nele uma teoria reducionista que explica toda a história humana pela luta de classes, Morin passa a ver como a verdadeira ciência multidimensional. Filia-se então, ao Partido Comunista, em que atuaria por dez anos. Enquanto os marxistas oficiais eram exclusivistas e excludentes, Morin mantinha uma convivialidade, não se desviando de nenhuma escola de pensamento. Enquanto estudante, Morin não sentia nenhuma vocação profissional, sua preocupação era a de responder às suas necessidades de conhecimento. Então, dedicava-se aos estudos de História, Geografia, Sociologia, Direito e Ciências Políticas. Leu Hegel com o objetivo de enfrentar e superar as contradições maiores desses quatro anos de guerra, derrota, ocupação, resistência, tão pesados para o mundo e para a França. Mas se forma cedo em Sociologia.
E nesse período de fim de guerra que casa-se Violette Chapellaubeau, socióloga, amiga de escola e companheira desde 1941. Durante doze anos convivem com tudo que há de profundo, de sólido e de tranqüilizador. Segundo Morin, a sedimentação de anos de provações juntos parecia cimento definitivo. Edgar e Violette, tem duas filhas.
Seus relacionamentos são ampliados com a presença de Marguerite Duras e encontros notáveis com Albert Camus, Raymond Queneau e Merleau-Ponty. Nos anos que se seguiram lança seu primeiro livro, O ano zero da Alemanha. Entre 1949-51, passa seus dias na Biblioteca nacional na preparação de O homem e a morte. A partir daí, Morin desenvolve um saber que aos poucos chega à concepção da ideia de complexidade que o faz surgir tornando Karl Marx limitado.
Avançando o tempo de 1957 a 1962 funda com alguns amigos a Revista Arguments. A partir de então começa a fazer diagnósticos imediatos sobre os acontecimentos enquanto estavam ocorrendo na vida política e social. Publica O Espírito e o Tempo. Permanece sempre estudando e descobre as obras de Adorno, Marcuse, Horkheimer, Karl Korsch, do jovem Lukács e do Heidegger tardio. Nunca se deixava de estar submetido à pressão simultânea de duas idéias contrárias: o sentimento da irredutibilidade da contradição e o sentimento da complementaridade dos contrários.
Nesse processo de encontros, aprendizados, reaprendizados e reorganização dos princípios do conhecimento, Morin concebe a idéia de uma obra que se chamaria O Método, obra em que trabalhou desde meados da década de 1970 e da qual publicou seis volumes entre 1978 e 2004 ? trazendo o paradigma científico da modernidade, passando a ser reconhecido como o pioneiro e o principal teórico do paradigma emergente da ciência na virada do século XX para o XXI: o pensamento complexo.
As relações afetivas com as mulheres levam Morin a se debruçar sobre si pedindo injunção interior (usando o termo literal). E põe-se a pensar e a escrever, o que isso pode significar para si. Morin é um ser interligado e interligando-se a todo tempo, a todo instante, a cada experiência.. Nessa vida, diz Morin, as "relações" sufocam a relação com o outro. Os conhecimentos fazem com que diminuam as amizades. Assim, entre encontro e desencontro e desencontro e encontro, suas relações tornavam-se racionadas em seiva, privadas de sentimento. Era o que meditava nos anos que seguiam 1965. Em 1980 Morin se encontrava num novo casamento com a artista plástica Joahnne, No entanto, os anos que se seguem compreendem todo um trabalho intelectual onde a identidade humana é assistida numa perspectiva singular e complexa. Em Caldine, reencontra Edwiges, que havia conhecido em 1961, no Chile, casando-se com ela posteriormente. Nesse período faz amizade com alguns intelectuais italianos, pesquisadores e professores, que interessados no pensamento proposto por Morin, passam a trabalhar com ele e a divulgá-lo intensamente na Itália. 1981, Publicação de (Jornal de um Livro) e (Para Sair do Século XX). É agraciado com a Legião de Honra pelo Ministério de Ciência e Tecnologia. 1982 Lança "Ciência com Consciência", onde destaca os limites, possibilidades e responsabilidades sociais da ciência. 1983, Publica ?Da Natureza da URSS: Complexo Totalitário e Novo Império?, no qual aprofunda sua análise do comunismo soviético e antecipa o rumo dos acontecimentos na era Gorbatchov: "uma evolução reformadora seguida de desintegração". 1984 participa do debate "O Problema Epistemológico da Complexidade" em Lisboa. Em Portugal seu pensamento encontra muita receptividade, principalmente na área da educação.
Então, é necessário dizer que não há lacuna, espaços vazios, ausência, de reflexão do momento em que esse filósofo sentiu a dor pela primeira vez e fez dela o amor pela humanidade. De 1984 a 2010, o pensamento complexo reintegra solidariedade e humanismo num presente e num futuro de incerteza, unificando prudência e audácia, radicalidade e compromisso.
Aos 88 anos, o filósofo francês Edgar Morin é hoje considerado um dos importantes pensadores vivos. Recente no Brasil a convite do diretor regional do SESC-SP marcou presença proferindo uma palestra sobre um novo modelo geopolítico, Pensar o Sul. Numa entrevista cedida durante sua permanência no Brasil, analisa o ceticismo dos escritores dizendo: A crise da humanidade deve-se em parte a uma crise do pensamento. A filosofia contemporânea está muito presa ao passado. O mundo dos intelectuais é, ao mesmo tempo, positivo e negativo. Nunca se precisou tanto deles e, ao mesmo tempo, nunca se viu tanta superficialidade nesse mundo. Penso num romance de Victor Hugo que se chama Quatrevingt-Treize (alusão ao ano 1793, em que Luís 16 foi decapitado e Robespierre espalhou o terror). Trata-se de um romance que mostra o horror provocado também por intelectuais de diferentes ideologias - um herói é condecorado por bravura e ao mesmo tempo condenado por negligência. Também é um ajuste de contas de Hugo com a história francesa e a própria história. É difícil escrever sem refletir sobre o presente, imaginando apenas o futuro. Temos de interagir com o mundo, participar dele, não apenas observar o que acontece. É o que mostra Muriel Barbery em L?Élégance du Hérisson (romance sobre um intelectual autodidata que, disfarçado de zelador inculto, interage com os moradores de seu prédio, entre eles um japonês). Recomendo entusiasticamente. É uma pequena maravilha. (MORIN, 2009).

Como referenciar: "EDGAR MORIN" em Só Filosofia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2019. Consultado em 19/09/2019 às 22:35. Disponível na Internet em http://www.filosofia.com.br/bio_popup.php?id=67